segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Pasto Universal

“A Iurd tem um histórico enorme de vidas transformadas, especialmente nos extratos marginalizados. Mas a despeito do know-how em exorcismo, nunca obteve sucesso em afastar Mamom”

O endereço onde o serviço é oferecido não deixa dúvidas. Catedral Mundial da Fé, na Avenida Dom Hélder Câmara, digo, Avenida Suburbana, Rio de Janeiro. Caso seja eleito prefeito do Rio em outubro, não é improvável que o senador e candidato Marcelo Crivella tente revogar decreto do ex-prefeito Luiz Paulo Conde para devolver àquele logradouro seu antigo nome.

Água benta do rio Jordão, rosa milagrosa, sal abençoado, sabonete de arruda, campanha para trocar o anjo da guarda, lenços ungidos... Não há limites nos expedientes usados pela Igreja Universal do Reino de Deus, a Iurd, para atrair mais pessoas. Qualquer pessoa com conhecimentos bíblicos elementares pode discorrer sobre a falta de embasamento nas Escrituras para a maioria das práticas da denominação. No entanto, a igreja tem sido agressiva nas retaliações e, como resultado, poucos ousam questionar as táticas da organização.

Classificada pela Veja como “a empresa que mais cresce no país”, a Universal é tema controverso até entre os pesquisadores. Para Andeers Ruuth, ela pode ser definida como “igreja de supermercado”. O sujeito vê a placa “pare de sofrer” enquanto passa pela rua, entra no templo, assiste à reunião, dá uma oferta – o momento mais importante do culto – e vai embora.

Eduardo Refkalefsky e Cyntia Lima discordam. Para eles, pastores e obreiros trabalham com o intuito de transformar o freqüentador esporádico em fiel assíduo e, claro, dizimista. Seja qual for o trabalho acadêmico, todos concordam num ponto: a ênfase na grana. Para entender um pouco melhor a questão, é necessário voltar aos primeiros passos da caminhada de Edir Macedo no Evangelho.

Durante doze anos, ele foi membro atuante da Igreja Pentecostal de Nova Vida, comunidade emergente na década de 1960, fundada pelo pastor canadense radicado no Brasil Robert McAlister. Segundo relatos, o missionário era tão convincente na hora das ofertas que era comum as pessoas doarem até o dinheiro da passagem do ônibus de volta. Em seu livro Dinheiro: Um assunto altamente espiritual, McAlister revela seu modus operandi: “Durante mais de 25 anos, tenho assumido o púlpito com duas coisas preparadas: minha mensagem bíblica e o apelo para as ofertas. Sempre soube que nenhuma das duas pode ser improvisada, resultando quase sempre a improvisação em fracasso”. Macedo foi um bom aluno e hoje tem, digamos, uma espécie de livre-docência na área.

Ao menos por um instante, deixemos Maquiavel quieto para afirmar, com indisfarçável satisfação, que a Universal é uma das comunidades mais acolhedoras do segmento evangélico. Calcula-se que seu exército de obreiros no país tenha mais de 500 mil integrantes. Travestis hipermaquiados e pessoas humildes e mal vestidas são tão bem recebidos nos templos quanto uma perua de sapatos Prada o seria em outra igreja neopentecostal. Com alardeados mais de seis milhões de membros, a Iurd tem um histórico enooorme de vidas transformadas, especialmente nos extratos marginalizados.

Com perdão pelo clichê, é possível afirmar que a Universal foi um divisor de águas no protestantismo brasileiro. A igreja completou 30 anos em julho do ano passado e construiu um império de comunicação com 23 emissoras de TV e quarenta de rádio. Reportagem da Folha de S.Paulo que provocou uma enxurrada de processos orquestrados revelou que a holding macedônica tem ainda outras 19 empresas registradas em nome de 32 membros da igreja, na maioria bispos.

A ascensão da Universal promoveu no Brasil um matrimônio quase indissolúvel. Após seu crescimento vertiginoso, o termo “dinheiro” com freqüência vem à mente quando alguém ouve a palavra “evangélicos”. Pelo mesmo raciocínio simplista, pastores são confundidos com charlatões. Várias igrejas chamadas tradicionais tiveram de alterar o discurso na hora de recolher dízimos e ofertas para não serem confundidas com a denominação que mais deslustrou a imagem do rebanho verde-amarelo em toda a história. Pesquisa da Vox Populi de 1996 mostrou que a Iurd é a mais desaprovada das grandes instituições brasileiras, com apenas 17 % de aprovação. O índice é menor até que o do Congresso Nacional. Fogueira nada santa.

Meu coração era preto
Alguns episódios contribuíram para enodoar o prestígio da Universal. Em 12 de outubro de 1995, o então bispo Sérgio Von Helde cismou de dar chute numa imagem da Senhora Aparecida em pleno feriado da santa considerada pelo catolicismo como padroeira do Brasil. As imagens, transmitidas prontamente no Jornal Nacional provocaram um verdadeiro deus-nos-acuda. O estrago doeu numa parte extremamente sensível da denominação: o bolso. Grandes anunciantes cancelaram contratos com a TV Record, controlada pela igreja, e houve queda no número de freqüentadores, especialmente no México e na Espanha. Segundo Macedo, Von Helde atrasou o trabalho da Universal em dez anos. Em 2006, ele saiu da Iurd em razão de novos chutes, desta vez no sentido figurado – punido por maltratar colegas pastores, ele se desligou da igreja.

Naquele mesmo ano, a TV Globo exibiu, também em horário nobre, o vídeo que mostra momentos de descontração de Macedo e colaboradores. Após uma partida de futebol, o líder da Universal ensina como pedir ofertas e inscreveu nos anais da trajetória do rebanho a indefectível expressão “dá ou desce”. Nem o sabonete de arruda foi capaz de retirar a mácula na imagem da instituição. Até hoje o vídeo é procurado no YouTube.

A guerra aos umbandistas é uma das grandes e controvertidas marcas da Universal. Só que, ao mesmo tempo em que combate as religiões afro, a organização se apropria não apenas de expressões do dialeto do candomblé como coloca os pastores de roupa branca nas chamadas “sessões de descarrego”. Após inúmeros protestos e processos, o grau de beligerância arrefeceu um pouco – porém, a intolerância continua em alta. Uma confissão ligeira: nunca compreendi o fato de, a despeito do extenso know-how em práticas exorcistas, nunca terem obtido sucesso em afastar a única entidade cujo nome foi revelado por Jesus: Mamom.

Uma nova história
A despeito do sucesso empresarial, a comunicação tem sido um calcanhar-de-aquiles na Universal. Sobram números e falta influência, num simulacro perfeito do que acontece com o povo de Deus. Por exemplo: a igreja publica o jornal com maior tiragem do país e raramente uma linha ultrapassa as fronteiras dos templos de gosto duvidoso.

No ano passado, toda a mídia fez estardalhaço com o lançamento de O bispo: A história revelada de Edir Macedo, publicado pela Larousse. Diretor de jornalismo da TV Record, Douglas Tavolaro incorporou o espírito “reescrevinhador” de Ali Kamel e amalgamou novas versões para cada uma das nódoas com veleidades e irrelevâncias sem-fim. Entidades ecológicas deveriam protestar com o destino triste de tantas árvores. O livro não vendeu o esperado nas livrarias mas, claro, fez sucesso nos templos da igreja. É provável que um livro de receitas de dona Ester, esposa de Macedo, obtivesse o mesmo patamar de vendas. Ao menos, seríamos poupados da constrangedora tentativa de transformar o dirigente da Iurd em mártir por conta de sua prisão em 24 de maio de 1992. Os mártires do cristianismo não merecem tamanho vitupério.

A lua-de-mel com a mídia durou somente o período em que a igreja obteve espaços generosos para divulgar a obra soporífera e chapa-alva de Tavolaro. Atualmente, chamar a denominação de “seita” já é suficiente para render um processo. Talvez devessem se preocupar bem mais com as palavras que irão ouvir naquele dia em que os bodes serão separados das ovelhas.

No poema O guardador de rebanhos, Alberto Caeiro afirma que “pensar é estar doente dos olhos”. Que o eterno guardador do rebanho continue velando e abençoando cada uma das dedicadas ovelhas de seu pasto universal. Afinal, nas palavras do poeta “a única inocência é não pensar...”

Sérgio Pavarini
Jornalista e editor do pavablog.blogspot.com e do boletim semanal PavaZine#.

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