quinta-feira, 5 de junho de 2008

Controle de Produção

Faixa Azul . Segundo órgão, aplicar 18 autuações por dia é um dos critérios de bom desempenho Fiscais da BHTrans têm cota mínima de multa no rotativo

Empresa justifica necessidade de ampliar capacidade de fiscalização

A BHTrans admitiu ontem que um dos critérios para avaliar o bom desempenho dos fiscais de estacionamento rotativo em Belo Horizonte é exatamente o número de notificações válidas aplicadas por cada um deles. A empresa estabelece o mínimo de 18 autuações por dia como um dos pontos analisados para que os agentes de trânsito possam fazer duas horas extras diárias e folgar aos sábados.
O fato foi denunciado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Assessoramento, Pesquisas, Perícias e Informações no Estado de Minas Gerais (Sintappi-MG). Segundo o diretor do sindicato, Emanuel Bonfante, um fiscal da BHTrans teria gravado declaração do responsável pela Gerência de Estacionamento Rotativo oferecendo a ele uma bonificação para aplicar mais multas. "O gerente prometeu hora extra e folga aos sábados se eles multassem mais", afirmou Bonfante. Ontem o coordenador de projetos e implantações da BHTrans, José Carlos Ladeira, negou que haja incentivo para a aplicação de multas e afirmou que o agente de trânsito que fez a denúncia sobre o bônus "interpretou mal" um dos itens discutidos em uma reunião realizada para que a capacidade de fiscalização nas vagas do Faixa Azul fosse maior.

Esse item diz respeito exatamente ao número de notificações válidas feitas pelos agentes - um dos 12 critérios para se conseguir folgas aos sábados. Em média, os fiscais do rotativo têm de fazer pelo menos 18 autuações diárias, conforme informou o coordenador. "Hoje já é de praxe fazer 25 autuações por dia, o que é pouquíssimo. O mínimo de 18 seria para eles não relaxarem na principal atividade, fiscalizar o rotativo", justificou.

O coordenador ressalta que é observado se o agente tem cuidado com o preenchimento da autuação, se a letra está legível. Também são analisados nos 12 itens de bom desempenho o cuidado com os equipamentos, pontualidade, agilidade em preencher relatório de autuações.

Em relação às folgas aos sábados, o coordenador explicou que a BHTrans tinha que aumentar a sua capacidade de fiscalização nos dias de semana devido ao grande número de irregularidades de motoristas. Segundo José Ladeira, há um desrespeito de 64% em relação ao Faixa Azul. De cada dez carros parados, uma média de 6,4 está irregular - não usa talão ou passa do limite de tempo.

Em contrapartida, são apenas 19 agentes para fiscalizar as 14 mil vagas de rotativo. Nove trabalham de manhã e dez à tarde. A carga horária é de seis horas. A BHTrans decidiu então, desde abril, que os fiscais poderiam voluntariamente fazer duas horas extras diárias, totalizando no máximo 12 por mês.

Mas, segundo José Ladeira, como o órgão não pode pagar hora extra para todos, só os três com melhor desempenho têm a oportunidade de folgar aos sábados, quando o rotativo só é cobrado de manhã. De qualquer forma, está marcada para hoje uma reunião na BHTrans e a norma será reavaliada.

Sindicato. O diretor do sindicato, Emanuel Bonfante, disse que vários agentes já levaram a reclamação sobre o incentivo às multas para o sindicato.

"Agora, um dos fiscais gravou e tem uma prova", afirmou. O agente que fez a denúncia preferiu não conversar com a reportagem por medo de represália. "Sempre soubemos que isso existia, mas parece que na gerência de rotativo há uma pressão maior. Os fiscais sempre foram contra isso, mas acaba sendo uma imposição dos chefes", denunciou o diretor do sindicato.

Empresa já multou 168 mil vezes

Somente nos quatro primeiros meses deste ano, a Empresa de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) já emitiu 168 mil multas por várias irregularidades, entre elas problemas com o estacionamento rotativo. O número, conforme dados divulgados pelo órgão no final do mês de maio, é maior do que o constatado no mesmo período do ano passado, quando foram emitidas 7.000 multas a menos. A justificativa é o aumento da frota de veículos. (PG)

Repercussão
Motorista quer fiscalização

Para o representante comercial Eustáquio Barbosa, 42, é válido que a Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) permita ao funcionário fazer hora extra para aumentar a capacidade de fiscalização no rotativo. "Uso sempre o Faixa Azul. Essa medida (de motivar o fiscal por meio de concessão de folgas) não deixa de ser um incentivo para que as multas sejam aplicadas, mas é uma forma de disciplinar o trânsito, pois deve ter uma fiscalização maior no uso das vagas", diz.

O professor Eduardo Andrade, 31, diz que a medida é bem-vinda, desde que os recursos arrecadados com as multas sejam investidos em benefício aos contribuintes, como, por exemplo, através da conservação das ruas e avenidas.

"Não sei se isso acontece. A gente também nem fica sabendo para aonde vai esse dinheiro", questiona o professor Eduardo Andrade. Ele afirma que não usa o rotativo todos os dias, mas já precisou comprar um talão do estacionamento rotativo por R$ 3,50 na mão de um flanelinha para estacionar na avenida Álvares Cabral, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. "É um preço abusivo. Se houvesse mais pontos-de-venda do talão na cidade, os flanelinhas não iriam agir dessa forma", reclama.

A pedagoga Ailza Amorim, 44, diz que usa mais os ônibus como meio de transporte para ir ao centro da capital porque, quando vai de carro, encontra dificuldade em estacionar. "A medida da BHTrans é válida, desde que o carro da gente esteja em segurança." (HM)
Publicado em: 05/06/2008

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