quinta-feira, 20 de março de 2008

Quem se importa?

Hoje o dia teve um final triste. Voltava pra casa, horário de pico, ou seja: ônibus que demora e passa lotado, trânsito e barulho. Barulho demais pra minha dor de cabeça e tontura, provavelmente conseqüência da minha má alimentação durante o dia. Por algum milagre, o ônibus não estava tão cheio e eu pude me sentar. Nem me esforcei para começar a dormir, estava realmente passando mal.

E então ele entrou. Pela porta de trás, obviamente, porque, a princípio eu nem havia notado sua presença (não estava notando nada ao meu redor). O ônibus parou em um semáforo e eu acordei da minha semi-inconsciência sentindo um cheiro insuportável. Um cheiro horrível, muito forte. Olhei para os lados, talvez houvesse algum caminhão de lixo parado perto e também prendi a respiração. Mas quando o ônibus andou, o cheiro não passou. Então olhei pra trás, lá estava ele. De pé. O cheiro vinha de um homem vestido com trapos, calçado com chinelos muito gastos e visivelmente bêbado.

Não exagero ao falar que o cheiro era forte. Era cheiro de carne podre. E olhando para o homem percebia-se que, literalmente, ele estava apodrecendo. Muitas pessoas desceram do ônibus no ponto seguinte. Algumas fizeram piadas. Outras disfarçavam e tapavam o nariz. A maioria tapava descaradamente (e o homem sequer se dava conta disso). Mas todas estavam incomodadas. Se afastaram, sobrando uma poltrona para o homem. Ele se sentou, ficou olhando pela janela e falando consigo mesmo. Palavras incompreensíveis.

Confesso, o cheiro também me incomodava muito. Já me sentia mal e a situação só piorava. Mas não consegui tapar o nariz. Não consegui rir das piadas. Estava bem perto da janela, o que me fez não desmaiar. E só conseguia pensar em uma coisa: o cheiro ruim, forte, podre, o homem levaria embora consigo, quando descesse do ônibus. As vidas das pessoas voltariam ao normal, sem inconvenientes como esse. Mas a vida desse homem não. Ele provavelmente continuará apodrecendo. Processo de decomposição em vida. E será, será mesmo que alguém se importará com ele? Sim, me entristeci pensando que ele continuará sendo uma piada, um cheiro ruim, um incômodo. "A vida é muito cruel", disse um passageiro se referindo à situação do homem.

A vida é muito cruel.

(extraído do Blog Não Analisa Não)

Meu comentário no Blog dela

Sarah, eu li e o texto me lembrou a abordagem do "Quem se importa?"

Posso visualizar a cena e dizer que até no meio dos cristãos ele seria caçoado e de certa forma repelido. Isso apenas evidencia o quanto o Ministério "Evangélico" tem sido deficiente e pouco acessível. Há uma lacuna há ser preenchida, mas que todos temem por não existir o "glamour" do reconhecimento. Oro e luto para que isso mude a começar de mim.

Is. 35:8c – “Os caminhantes, até mesmo os loucos, nele não errarão.”

Um comentário:

Sarah Toledo disse...

Daniel, muito obrigada por seu comentário nesse meu post! Eu geralmente penso muito antes de escrever, nem tudo boto no blog. Mas nesse dia essa situação tava entalada.
Concordo com o que você disse, mesmo no meio "cristão" é provável que haveria rejeição também. O que faz de tudo isso algo ainda mais triste. Mas, refletindo melhor sobre isso, lendo os comentários que deixaram (inclusive o seu), é um consolo saber que Alguém se importa, sim. Só é preciso lembrar que essa importância será demonstrada através de nós! E como é difícil demonstrar isso em certos momentos...

Fique na paz!